sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Do lixo ao luxo: Novelas que reverteram queda em audiência e se tornaram grandes sucessos


Nem toda trama que é sucesso consegue este status desde o começo de sua exibição. Algumas começam meio capengas, seja na qualidade ou na audiência e depois de um determinado momento – geralmente uma virada na trama – vão do inferno ao céu em questão, às vezes, de um capítulo. Hoje vamos falar um pouco sobre algumas tramas que passaram por esta trajetória. Vem com a gente que não tem erro.

AMÉRICA (2005)
Em 2005, embalada pelo seu mais recente trabalho, “O Clone” – sucesso de crítica, público e exportação – Glória Perez escrevia mais uma novela para o horário nobre da TV Globo.  América” contava a saga da mocinha sofredora Sol (Deborah Secco) que em busca de uma vida melhor se arriscava pra entrar ilegalmente nos Estados Unidos. A narrativa lenta, a mocinha muito sofredora e passiva e uma direção triste afastaram o público que fora deixado por Senhora do Destino – maior audiência do século XXI. Veja o histórico de audiência na tabela a seguir:


Para acessar a tabela completa, clique aqui.

Logo a crise chegou aos bastidores: Glória não se entendia com Jayme Monjardim, diretor da trama. Por seis semanas seguidas a novela foi conquistando recordes negativos na média semanal. Arriscando todas as suas fichas, a autora rompeu com o diretor e eu seu lugar entrou Marcos Schechtman. Visualmente era possível perceber as mudanças na trama, a começar pela abertura inicial que na direção de Jayme era esta:


E na “era” Marcos passou a ser esta:


Com uma mocinha mais ativa, o casal principal desfeito (Murilo Benício que era par de Sol passa a se envolver com Gabriela Duarte, e Deborah Secco com Caco Ciocler) e mais “colorismo” na trama, os índices responderam bem. O folhetim que parecia que seria apenas mais uma trama batida, terminou com a segunda maior média geral no horário e a maior audiência do século: 68 pontos com picos de 72 no último capítulo. Dos três exemplos que darei, este é o único em que as mudanças foram não necessariamente por causa de um evento impactante na trama, mas muito mais à condução da direção.

A FAVORITA (2008/2009)
Quem nunca ouviu falar de Flora Pereira da Silva, vilã magistralmente interpretada por Patrícia Pillar na obra de João Emanuel Carneiro que estreou no início de junho de 2008? Porém, nossa memória afetiva as vezes nos faz esquecer que a trama teve um começo bem conturbado. Veja a audiência a seguir:


Para acessar a tabela completa, clique aqui.

Talvez vocês não se lembrem, mas 35 pontos deu à novela o título de pior estreia de uma obra da faixa da história até então (e pensar que hoje estrear com 35 pontos é motivo para fogos e Champagne rsrsrs). Mas, por que isso? Bom, houve uma série de fatores. Primeiro, querendo ou não, o João Emanuel Carneiro tem um estilo de escrita que se aproxima muito de séries dos EUA e, na época, isso era um tanto incomum para o grande público (ainda não é tão popular, mas após “Avenida Brasil”, também de Carneiro, com certeza se tornou mais palatável).

Segundo fato: a produção “Os Mutantes: Caminhos do Coração”, que era exibida pela Record, dava bons índices de audiência para os padrões da emissora, pegando uma parcela do público que até então assistia “Duas Caras”, antecessora de “A Favorita”.

Terceiro fato: a história começava sem uma vilã ou mocinha definidas. Imagina a dona Maria que mora na periferia de São Paulo que está acostumada a acompanhar maniqueísmos tão claros desde 2549-9 ocupado (tá, fui hard no exemplo, mas ok rsrsrs) chegar em casa e não saber para quem torcer? Isso causou curiosidade num primeiro momento, mas uma hora o público se cansou. O que era pra ter acontecido por volta do capítulo 100, foi antecipado para o capítulo 60 a fim de obter reação da audiência. Na primeira semana cheia de agosto de 2008, finalmente Flora se revelou para todo o país como a grande vilã da trama e algoz da mocinha sofredora Donatela (Claudia Raia). Vejamos a cena:


Desse momento em diante a história passou a cair de fato nas graças do público. Esse jogo com o telespectador, que no começo comprometeu um pouco os índices da trama, foi bem aceito pela massa que embarcou na história e a cada maldade de Flora, Patrícia Pillar revelava mais um pouco da grandiosa atriz que sempre foi. Apesar de não ter terminado acima de 40 pontos, sua meta, a trama com certeza ofuscou a sua antecessora e colocou Flora para sempre no mapa das grandes vilãs de todos os tempos das novelas brasileiras.

O OUTRO LADO DO PARAÍSO (2017/2018)
Não poderia terminar esta trinca sem falar de “O Outro Lado do Paraíso”, novela das 21h de Walcyr Carrasco exibida entre outubro de 2017 e maio de 2018. A trama tinha uma sinopse bem promissora: uma mocinha sofredora e inocente que é enganada pela sogra e pela cunhada com a ajuda de um amontoado de pessoas, e é internada num hospício. Foge de lá e volta rica, poderosa, absoluta e Stephany (tá, parei kkk) e promete se vingar de todos, além de buscar obter a guarda de seu filho de volta. Você lê a sinopse e reage: “35 pontos de média no meio de um feriado estendido quente de carnaval num sábado”. Hoje sabemos que a trama terminou com a maior audiência da faixa desde o estrondoso sucesso “Avenida Brasil” (2012), porém as cinco primeiras semanas foram bem problemáticas para o folhetim. Vamos aos números:


Para acessar a tabela completa, clique aqui.

Reação imediata às primeiras semanas da trama: “A Regra do Jogo, acorda, temos visita!”. Mas a verdade é que as pessoas de casa tinha entendido sim a proposta do autor – também, tem que ter algum problema cognitivo pra não entender a proposta das novelas do Walcyr – mas o que o público não entendeu foi a proposta de fundamentação da trama da Clara (Bianca Bin), protagonista da trama. Um tom mais arrastado e até mais caprichado em termos de estrutura de cenas afugentou o telespectador. Logo, Walcyr tomou providências e reestruturou cenas. O diretor Mauro Mendonça Filho acelerou a condução da trama e os resultados vieram.

Observem que na semana 6 a trama já crava 36 pontos na segunda-feira, e 39 logo no dia seguinte. Foi a partir deste dia que a Clara começa a arquitetar a sua vingança. Uma mocinha vingativa é um prato cheio para a torcida do público. Aliado a isso temos a introdução de novos e mais carismáticos personagens – beirando ao circo, diga-se de passagem – que, se por um lado geravam críticas aos analistas profissionais de novelas, por outro atendiam a demanda do grande público por uma história que fosse ideal para se assistir após a janta ou depois de um dia exausto de trabalho.

O ponto alto da virada foi a volta triunfal de Clara à cidade de Palmas, coroando a icônica frase “Não imaginam o prazer que é estar de volta”. Veja a cena (tem cortes, só no site da Globo pra ver completa):


O Outro Lado do Paraíso” saltou de um início complicado (chegou a ter menos de 30 pontos na média geral e atingir 28 de média semanal) e terminou como o terceiro maior IBOPE da década do horário das 21h, além de ser a novela mais vista da história da TV brasileira em número de domicílios, ultrapassando “Belíssima” (2005) – a trama de Carrasco acumulou 38.2 pontos e sua maior média semanal foi de 44.3 pontos (última semana).

Vimos por estes três exemplos que com mudanças corretas e uma história boa é possível sim reverter índices iniciais capengas de audiência. Claro que a maioria não consegue, mas não é impossível. E vocês, leitores, lembram de outros exemplos? Comente aqui embaixo e interaja conosco.

Um beijo e um queijo e até a próxima.

Texto: LUCIANE LEITÃO.

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